• Ana Clara Thomaz

Artista e mestranda, Luisa B nos conta sobre sua trajetória

Updated: Mar 25

Luisa B é carioca, artista visual, aspirante a escritora e participante da Mesa "Monstros, medos e outras criaturas" no dia 26/03, sexta-feira, às 18h. Como um esquenta para o evento, resolvemos entrevistar a artista a fim de conhecer um pouco mais de sua trajetória.


A sua paixão pelas artes visuais e escrita são evidentes, desde a infância. A pergunta que surge, então, é por que você optou por cursar Arquitetura, e não Letras ou Artes Visuais? Você chegou a trabalhar com Arquitetura na sua vida?

Pois é. É o seguinte: minha paixão não era bem pelas artes visuais mas, vamos dizer assim, pelo universo mesmo. Parece muito amplo, mas é isso aí. Quando era criança, não entendia como um ramo do conhecimento podia estar desconectado do outro. Gostava da física que lia nos almanaques - aquela ciência da Superinteressante. Mas também amava cinema - eu assisti ET no cinema, então foi arrebatador. Assisti Solaris do Tarkowski no cinema quando era criança. Sempre amei sons e música. Dança. Comecei a gostar de futebol por causa do Garrincha. Era arte, era dança.

Gostava de pensar sobre o universo, ficava pensando em teorias totalizadoras. E tinha o desenho. Tinha o humor. Eu lia MAD. Lia Henfil, Ziraldo - para adultos e Millôr. Eu era metida a politizada, estávamos nos anos 80. A forma de escrita e de desenhar do Millôr, seca, acessível e honesta, está no meu DNA. Tem as cobrinhas, o Veríssimo. A canção. Me lembro que era muito pequena e ficava esperando a abertura da novela Água Viva porque tinha a Baby Consuelo cantando Menino do Rio. Lá em casa tinha uma meia dúzia de LPs. Saltimbancos, Caros amigos, Pluft - o fantasminha. Flicts, do Sergio Ricardo. Eu escutava MEC FM.

Eu guardava as frases das canções para usar na vida. Colecionava palavras como um esquilo junta nozes, como diz a Laura Erber. Uma vez disse “aqui prá você” para uma professora minha, no primário. Era por causa do Punk da Periferia. Eu ia para o colégio Sion com um casaco tipo de nylon, meio que violeta escuro, em pleno verão carioca porque eu queria ser punk. Meu coração era do tamanho de um trem. Ainda é. Minha sobrinha diz que eu acho tudo legal. É verdade. Mas uma coisa não entendia: para que ficar parada na frente de um quadro num museu se a arte estava em toda a parte? Se a gente podia ver muito melhor nos livros. Para que um objeto único? O que a Mona Lisa tem que um boneco de Star Wars não tem? Achava arte no museu morta. E principalmente, mórbida. Ainda acho, de certa forma. Mas agora consigo lidar melhor com o mórbido. É difícil para uma criança, florindo, vendo tudo florir, entender esse tipo de coisa. Entender a perversão do mundo. O mal. É uma coisa que só a experiência pode te dar o instrumental para lidar com isso.

Fiz anos de Parque Lage e diversas oficinas de artes visuais: PUC, Maria Teresa Vieira. Ficava pasma com a separação entre as coisas, mesmo nestes meios mais liberais. Então entrei para a Escola de Belas Artes da UFRJ.

E foi quase um horror completo: nas matérias práticas, aquele clima de fazer os trabalhinhos que o professor manda, ninguém sabia nada. Nem colegas nem professores. Era uma burocracia. Ninguém tinha lido nem livro da Taschen. Estávamos no fim dos anos 90. As pessoas não sabiam o que era uma performance, uma instalação. Isso mudou demais hoje em dia.

Nas matérias teóricas era bem melhor: o departamento de história e teoria da Arte da EBA era ótimo. Tive aulas com a profa. Ângela Âncora da Luz, que é a melhor pessoa do mundo e depois virou diretora e levou a EBA para o século XXI. Tive aulas com um crítico chamado Paulo Venancio Filho, que é um cara ótimo. Conheci também uma professora chamada Lourdes Barreto, que é pintora. Eu ficava meio que desafiando ela, mas ela foi a única professora de arte na parte prática de atelier, de verdade, que tive lá. Ela é uma artista. Somos amigas até hoje.

Comecei tirando ótimas notas nos primeiros períodos, mas as coisas não estavam bem. Eu era um avião cheio de combustível, que começou a acelerar na pista, decolou e foi brecado. Então capotei. Minhas notas começaram a cair: eu abandonava as matérias. Fiz algumas matérias na Letras e na História da UFRJ. Ajudou, mas não conseguia a cola para juntar as partes em minha arte e em minha vida. Pensei que arquitetura juntava muitas artes, tinha um pé no chão - eu poderia me sustentar. Fiz a prova de transferência interna. Passei em segundo lugar, sem ter estudado uma palavra. Foi um dos maiores erros da minha vida. É um curso que não deixa tempo livre nenhum para você existir.

Terminei a graduação em Arquitetura em 2013. Ao mesmo tempo comecei a escrever o roteiro de um filme de terror. Tenho um amigo que é cineasta e professor de cinema na UFF. A gente ficava conversando sobre roteiros no apartamento dele. Eu, ele, a esposa dele, que é atriz. Escrevi um argumento. Mostrava para as pessoas. Elas gostavam de ler e me diziam que era legal como livro. Tendo em vista também que era uma maneira de ter controle criativo total sobre a história, investi na idéia de um livro ilustrado. Começou assim o projeto T. Comecei a escrever e pesquisar. Faz uns cinco anos.

O livro foi ganhando um aspecto bastante intertextual, misturando diversas narrativas: canções, poemas, livros, filmes e histórias em quadrinhos. A escrita estava juntando minhas partes díspares. Pesquisando percebi que embora muitos artistas trabalhassem maravilhosamente misturando narrativas - Allan Moore é um dos mais bacanas - mas foi Monteiro Lobato que fez isso de longe da forma mais intensa e radical. Nada se equipara: o Sítio do Pica-Pau Amarelo é um multiverso vivo.

Conversando com uma grande amiga que é professora de linguística da Letras na UFRJ, pensei em uma dissertação sobre intertextualidade na obra de Lobato como fonte de pesquisas para meu livro. Fiz a prova para o mestrado para lá, passei na terceira vez. Comecei o mestrado em março do ano passado. Peguei duas matérias na UERJ - Gótico e Literatura Infanto Juvenil - e uma na UFRJ - Formas híbridas no Romantismo. Então começou a quarentena.

Pela internet, comecei a meditar e fazer yoga todos os dias. A UERJ também logo começou grupos de estudo de Literatura Infantojuvenil pela internet. Depois começaram as aulas de Gótico. Acertei na cabeça. Pela primeira vez estava estudando o que me interessava. A professora Conceição, de Gótico é incrível. A professora Regina Michelli, de LIJ, é maravilhosa. Ela é hoje minha co-orientadora. As duas matérias tinham, vale lembrar, uma abordagem focada no feminino. Mais tarde começou a matéria de Romantismo, na UFRJ, que foi ótima. Todos os trabalhos vão virar capítulos da dissertação. Eu estava conseguindo juntar partes, sem esforço.

Atualmente, meus únicos clientes fixos em arquitetura são ex-colegas das oficinas de pintura na PUC, que são como irmãos para mim. Eles tem uma fantástica empresa de arquitetura em bambu. Eu desenho para eles. Trabalhamos regularmente esses anos todos, mesmo durante a pandemia. É uma alegria trabalharmos juntos.

Neste semestre, só com matérias na UFRJ, tudo continua se encaixando: estou fazendo quatro matérias excelentes. Duas tratam de temas femininos: Poéticas femininas contemporâneas e Literatura Negra. Ainda tem o grupo de estudos de literatura feminina com minha orientadora, a profa. Anélia Pietrani.

Quais os mitos brasileiros que você aborda em seu mestrado que se relacionam com o Sítio do Pica Pau Amarelo?

Nos últimos anos, a palavra mito caiu em desgraça. Não é culpa dela, não é? Foi o que fizeram dela.

No que se refere a personagens do folclore brasileiro como o Saci e a Cuca, é claro que eles também são abordados na dissertação, na medida que fazem parte do universo do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Mas o Sítio não trata somente sobre o interior do Brasil real em contato com o imaginário das tradições populares. Só isso já seria bem interessante. Mas é muito mais que isso.

O Sítio também dá acesso a diversos universos mágicos, fantásticos e imaginários. No Sítio convivem universos do folclore europeu, mitologia grega, das mil e uma noites e literatura infanto-juvenil, com anjos, personagens de desenhos animados e de cinema. Agrega também, em uma torção hiper-real, acontecimentos históricos contemporâneos e personalidades de sua época. Por fim, também é lugar das ciências humanas e exatas: gramática, filosofia, história, geografia, geologia, astronomia, matemática. O Sítio é a mistura de todos os possíveis universos do conhecimento humano e o próprio multiverso do Sítio é ele mesmo um monstro híbrido. Não só em seu conjunto, mas também em cada célula, em cada molécula de seu híbrido DNA


Perguntas elaboradas por: Alice Lieban

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