• Sophia Lyrio

De Manaus ao Rio de Janeiro: o debate passeia pelas pontes construídas a partir do teatro

Por Sophia Lyrio

No último domingo (28/03), a mesa Dois olhares para dramaturgia de Fina promoveu a discussão acerca de duas interpretações, ora paralelas ora divergentes, da peça escrita por Karen Acioly. A autora, que também é atriz, teatróloga e dramaturga brasileira, mediou o encontro virtual que trocou os saberes adquiridos em cada encenação. Pautas como adaptação frente à pandemia, escolhas de enfoque temático e instrumentos teatrais foram levantadas.


Luísa Miranda, uma das idealizadoras do projeto artístico-educativo Projeto Teatro Nômade (carioca), revelou um pouco do processo criativo da leitura dramatizada da peça, já pensada por eles para o contexto virtual. Na companhia de Bruno Paiva, que dirigiu a leitura, os dois pontuaram as descobertas e desafios de transpor tanto o enredo quanto a apresentação para o cenário cibernético.


A festa de aniversário de Fina não poderia ter sido de outro jeito: uma videochamada por Zoom. Bruno alegou ter tomado essa decisão artística pensando na identificação das crianças que, dado o momento histórico em que estamos vivendo, poderiam ver na peça um espelho de suas próprias realidades. Já em relação as técnicas e instrumentos, o diretor ressaltou a utilização de sombras. Seja em duas ou em três dimensões, o efeito é similar, além de corroborar o aspecto estético do formato audiovisual.


Bruno contou sobre um colega que, quando questionado acerca de que objeto poderia fazer sombra de árvore, trouxe o legume. E foi assim que um brócolis acabou ilustrando as potencialidades descobertas dentro de casa como possíveis instrumentos teatrais. “A gente descobriu que dentro de casa a gente tinha inúmeras ferramentas muito potentes para teatralizar a leitura”, ele completou.


Os dois outros integrantes da mesa, Tércio Silva e Thais Vasconcelos, fazem parte do Teatro Buia, de Manaus. Tércio, o diretor, optou por realizar a peça no palco, ainda que o teatro estivesse com o público muito reduzido devido às normas de distanciamento social.


Thais, a atriz que interpretou Fina, respondeu sobre a experiência de palco sem plateia. Segundo ela, os murmúrios, as tosses e as vozes das crianças são os elementos que preenchem os atores. “Eu sinto muita falta das pessoas, do palco, do abraço, eu só sei te dizer isso”, lamentou.


Em termos de cenografia, a peça no modelo “presencial” também demandou adaptações. Tércio apontou que, pensando na responsabilidade educativa do teatro para o público infanto-juvenil, cenas fundamentais que envolviam beijo e abraço precisaram ser modificadas.


A solução para esse conflito se deu a partir da dramaturgia pontilhada; modalidade inventada por Karen Acioly e que consiste em estimular a imaginação do público, deixando em aberto as possibilidades interpretativas. Seguindo essa linha, Tércio pôde trazer um boneco para substituir o ator que contracenava com Fina, deslocando o enfoque para as questões internas da protagonista.


Outro aspecto que saltou aos olhos - e ouvidos - na montagem do Teatro Buia foi a musicalidade, uma escolha de direção fundamental ao conjunto da obra. Thais e Tércio compartilharam como foi o processo de transformar texto em música, cantarolando inclusive elementos regionais como “sorvete de cupuaçu”. Os dois vislumbraram nas canções um elemento que aproximaria os mais diversos públicos.


Uma divergência pontuada por Thais entre as duas montagens se refere ao enfoque dado pelo Teatro Buia à questão da gordofobia, enquanto o Teatro Nômade não nomeou ou ressaltou esse ponto. Bruno e Luísa justificaram essa opção, explicando que os conflitos da protagonista permearam a leitura dramatizada de forma equânime, abordando as crises de modo fluido e interativo, até mesmo pelo tempo reduzido da apresentação.


Por último, Karen Acioly evidenciou sua honra e emoção ao ver Fina vivendo a partir dos dois grupos teatrais. “A dramaturgia só é viva quando alguém encena, então vocês encenaram [...] muito obrigada!”.


O riquíssimo encontro proporcionou reflexões acerca da sobrevivência artística em tempos de pandemia, da descoberta de possibilidades teatrais pouco exploradas e, principalmente, da enorme importância da troca. Seja entre palco e plateia, entre grupos teatrais ou entre escritor e leitor, é a troca que nos mobiliza. Vale a pena conferir!


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