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Batalha Oroboro: um espetáculo para enxergar além dos preconceitos.

Writer: anacpintofil
anacpintofil
Oct 1
4 min read


Por Magali Nozomi


Você sabe o que significa ¨oroboro¨? A imagem da serpente engolindo sua própria cauda simboliza a constante renovação de ciclos. Pensando nisso, a Cia. Pequeno Teatro do Mundo trouxe ao FIL nos dias 19 e 20 de Setembro o espetáculo ¨Batalha Oroboro – rap, repente, resistência¨, que conta a história de Lyz MC, uma jovem cega da periferia paulista que sonha em ser campeã da Batalha Oroboro e seu avô, um poeta nordestino apaixonado por Cego Aderaldo que migra para São Paulo. Através de uma mistura de linguagens artísticas - como marionetes, projeções e áudio - a apresentação aproxima duas gerações de uma família por meio da poesia e coloca em debate questões como misoginia, capacitismo, a violência nas comunidades e a estereotipação das culturas do sertão e das periferias urbanas. 

Esse é o primeiro teatro de marionetes da companhia voltado para adultos contando com uma linguagem grosseira e cenas de sexo e violência, elementos que causam surpresa durante a apresentação.  Além disso, a exibição também busca ser acessível para todos, contando com a narração de algumas cenas e uma televisão que passa a interpretação em libras das falas dos personagens.  

O espetáculo começa com uma audiodescrição do ambiente. No palco estão um pequeno projetor e uma cadeira, luzes amarelas ficam no chão em volta do palco e luzes brancas e fortes emolduram o telão em que será apresentada a história. Surge então a figura de Aderaldo, que caminha lentamente até o centro da cena e começa a contar sobre suas projeções de cinema no sertão. Ele se senta ao lado do projetor e inicia a sessão, o filme do dia é “Batalha Oroboro”.   

A performance nos convida a viver experiências que vão além da visão. Um dos primeiros momentos marcantes do espetáculo se dá quando Lyz pede para que o avô feche os olhos e imagine não conseguir enxergar, afinal, segundo ela ¨O mundo foi feito para quem enxerga¨. Enquanto o avô fecha os olhos, são projetadas imagens no telão junto com uma narração que traduzem as sensações e pensamentos dele. 

Adiante, somos forçados a usar a imaginação, quando Lyz e Corisco (outro mc de batalhas e par romântico da protagonista) se beijam pela primeira vez.  Enquanto os personagens ainda conversam, as luzes que iluminam o palco começam a se apagar e é projetado no telão a imagem de um rádio. Inicia-se então a narração do beijo deles como se estivéssemos acompanhando uma partida de futebol. Tudo isso deixa a cena muito mais interessante, afinal, o que é mais encantador do que a imaginação humana? 

A exibição ainda traz cenas que falam sobre o ¨mito¨ da seca nos sertões, desconstruindo a imagem miserável atrelada a esse lugar. O avô de Lyz, substitui o preconceito pela cultura do repente e pelas belezas nordestinas através de suas histórias e músicas. 

Durante o show também assistimos a protagonista passar por inúmeros desafios, seja dentro das batalhas, sofrendo com ataques misóginos durante sua participação, ou no seu cotidiano, quando ela encontra dificuldades para arranjar um emprego por ser deficiente visual. Apesar disso, Lyz supera essas discriminações com a ajuda do hip hop e de Cego Aderaldo, com quem ela conversa na última cena do espetáculo.  

O espetáculo é inteiramente produzido pela Cia. Pequeno Teatro do Mundo, desde a confecção dos fantoches até o roteiro da apresentação. Fabiana comenta sobre o processo de desenvolvimento da história que envolveu muita pesquisa e a inclusão de Rogério dos Anjos, um artista cego que ajudou na produção, criação e balização de texto. Eles passaram uma semana juntos estudando o repente em Cariri e através dessa experiência, puderam entender melhor a rotina e as dificuldades de uma pessoa cega.  Para Fabiana, tudo isso contribuiu para que o espetáculo se tornasse mais acessível ainda. A partir disso, eles passaram a utilizar a paisagem sonora e o texto como base para adaptar a imagem, criando um espetáculo onde cada espectador veja algo diferente. 

Dessa forma, o título apresentação vira uma ironia, já que a ¨Batalha Oroboro¨ é um espaço onde o ritmo e a poesia se encontram para quebrar ciclos de violência e preconceitos, espalhando a cultura periférica para o Brasil. 

 

Cego Aderaldo, o coração do espetáculo 

Aderaldo Ferreira de Araújo, mais conhecido como Cego Aderaldo foi um famoso repentista e poeta cearense, que ficou cego após sofrer um acidente aos 18 anos. Então, ele decide viajar o sertão nordestino para ser cantador e fica muito famoso após ganhar uma batalha de repente contra Zé Pretinho. Em certo momento ele ganha um gramofone, passando a levar música para as pessoas do interior do nordeste. Mais tarde, ele continua suas viagens pelo nordeste levando informação e cultura para o povo do sertão através da projeção de filmes que são narrados por ele. 

O personagem de Aderaldo carrega a alma do espetáculo, pois é sua figura quem entrelaça a tradição da poesia com a deficiência visual e a cultura periférica e sertaneja. Além de introduzir o espetáculo e assisti-lo com o público, ele se faz presente durante toda a narrativa, sendo constantemente mencionado pelo avô de Lyz. Dessa forma, sua figura se torna uma espécie de símbolo de força e proteção para ela.   

Em entrevista, Fabiana Vasconcelos Barbosa - atriz, marionetista e co-fundadora da Cia. Pequeno Teatro do Mundo - conta que conheceu o nome de Cego Aderaldo através da música ¨A prosa impúrpura do Caicó¨ de Chico César e, ao descobrir a história do repentista, resolveram criar uma apresentação que unisse a cultura popular do sertão com o hip hop urbano, outra modalidade artística que ela também tinha acabado de descobrir. 



 
 
 

10 Comments

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Guest
Oct 02
Rated 5 out of 5 stars.

ameii

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Guest
Oct 02
Rated 5 out of 5 stars.

muito bom!! 👏

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Mayara
Oct 02
Rated 5 out of 5 stars.

conteúdo sensasional!!

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Maria Paula
Oct 02
Rated 5 out of 5 stars.

amei o conteúdo!!!

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Analu
Oct 02
Rated 5 out of 5 stars.

Que lindo o texto, espetáculo mais lindo ainda❤️

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