Con un kilo de harina: Fernán Cardama transforma farinha em memória e ancestralidade

Por Anna Júlia Romano
Um quilo de farinha pode parecer um material incomum para fazer arte ou contar a história de uma família. Porém, no palco do FIL (Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens), o ingrediente ganha novas formas e significados nas mãos do artista argentino Fernán Cardama, que busca contar o máximo com o mínimo.
Na abertura do espetáculo, o público é apresentado à história com a seguinte narração: “Com um quilo de farinha, você pode fazer seis pizzas, cem panquecas, cento e vinte e quatro sorrentinos e massa suficiente para quatro cabeças de fantoche. Com um quilo de farinha, contamos a história de Giuseppe e sua família; uma família como tantas outras que teve que emigrar em busca de um futuro melhor.”
A Companhia Fernán Cardama utiliza uma mesa, 1 kilo de farinha e alguns objetos de cozinha para contar a história de sua família. Giuseppe, avô de Fernán, tinha 15 anos quando chegou à Argentina, depois de uma viagem de 45 dias, sem dinheiro no bolso. O jovem deixa para trás, na Itália, Margarita, seu grande amor. A partir da trajetória do avô, Cardama reconstrói a história de três gerações de sua família, marcada por diferentes processos de migração.
Margarita posteriormente também vai para a Argentina, onde os dois abrem uma pizzaria com o nome dela. Anos depois, os pais e Fernán, ainda criança, deixam o país em direção à Espanha por consequência do período de ditadura na Argentina. Com o retorno da democracia, seus pais voltam para sua terra natal, enquanto Fernán decide permanecer na Espanha. Mais tarde, ele conhece sua esposa, Lu, tem um filho e, com a família, retorna à Argentina movido pela saudade de seus parentes.
A história atravessa diferentes momentos e lugares, mas mantém a imigração e os laços familiares como eixo central. A disposição dos objetos é constantemente transformada para criar diferentes cenários e situações, como um almoço em família, um barco, uma pizzaria e até uma guerra, com direito a um tanque de guerra construído a partir dos elementos disponíveis em cena. A iluminação, a música e os movimentos corporais do artista também contribuem para a construção da narrativa, permitindo que o público acompanhe a história mesmo diante do portunhol e de objetos pouco usuais no teatro. A combinação dessas diferentes formas de expressão dialoga com a própria proposta do FIL, que tem o intercâmbio de linguagens como um de seus propósitos.
Idealizado e dirigido por Karen Acioly, o Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens foi reconhecido em 2025 como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Ao longo de mais de duas décadas, o festival tornou-se também um espaço de formação de público e de encontro entre diferentes gerações e linguagens artísticas.
No 4º dia dessa edição do FIL, domingo, 20 de setembro, o Teatro 3 do CCBB recebeu uma sessão com a sala cheia e um público diverso, formado por crianças, adultos e idosos. Ao final do espetáculo Con un kilo de harina, Cardama foi aplaudido de pé pela plateia.
Entre os espectadores estava Isabel Pedrosa, de 39 anos, que assistiu à apresentação acompanhada do marido e do filho, Joaquín, de 9 anos. Para ela, a história despertou emoção e também conseguiu ser compreendida sem dificuldades, apesar do uso do portunhol e da construção da narrativa por meio de objetos. Isabel define a peça como uma história sobre ancestralidade. Seu filho também aprovou a apresentação.
Para Cardama, a relação com a ancestralidade está no centro da obra. A escolha da farinha surgiu durante a pandemia, quando as possibilidades de produção eram reduzidas, mas também se tornou uma forma de homenagear o avô italiano. Na família, a comida e os almoços eram uma maneira de manter os vínculos e se comunicar, fazendo da cozinha uma parte importante de suas memórias.
Mais do que recontar a trajetória de sua família, o artista busca preservar as histórias de quem precisou deixar seu país em busca de outras possibilidades. A obra também propõe uma reflexão sobre a imigração forçada e sobre as marcas que esses deslocamentos deixam nas famílias ao longo das gerações. Para Cardama, é importante que essas histórias não sejam esquecidas e que as novas gerações mantenham contato com suas raízes. “Se você tiver que emigrar, que não precise ser forçadamente”, afirma.
Con un kilo de harina recebeu o Prêmio FETEN 2022 de Melhor Espetáculo de Objetos, na Feira Europeia de Artes Cênicas para Crianças e Jovens de Gijón/Xixón, na Espanha. A obra tem ideia original de Fernán Cardama, direção de Claudio Hochman e Carlos Piñero e texto original de Claudio Hochman. As apresentações no FIL aconteceram nos dias 18, 19 e 20 de setembro, no Teatro 3 do CCBB.



Muito bom!!!!
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