Entre a infância e fantasia: os filmes de Alan Minas.

Por Giovanna Gomes
O Festival Internacional Intercâmbio de Linguagem, FIL, que começou no dia 17 e segue até 27 de setembro, no CCBB Rio de Janeiro, é um evento cultural e social que reúne diferentes tipos de arte como teatro, música, dança, literatura e cinema. O festival, que conta com uma programação cheia de espetáculos voltados para o público infanto-juvenil, aborda o universo da infância de diferentes maneiras, com artistas nacionais e internacionais. Idealizado por Karen Acioly, oFIL se tornou Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Rio de Janeiro no ano de 2025, sendo uma forma de promoção cultural para o público jovem.
Entre essa programação voltada para a cultura da infância, o FIL proporcionou, no dia 20
de setembro, uma Mostra de Filmes sobre a Infância. Os filmes expostos, A Língua das
Coisas (2010) e A Família Dionti (2015), do diretor Alan Minas, abordam diferentes
experiências do que é ser criança e questões relacionadas a essa fase da vida.
A Língua das Coisas é um curta-metragem inspirado na obra de Manoel Barros. A história
acompanha Lucas e seu avô, que vivem no interior e não sabem ler e nem escrever. O avô de Lucas, porém, conhece a língua dos bichos, do rio e das plantas, apresentando ao seu neto uma forma diferente de perceber e compreender o mundo ao seu redor.
O filme A Família Dionti foi o primeiro longa-metragem de ficção escrito e dirigido por
Alan Minas. A obra se passa em uma cidade do interior brasileiro e acompanha o drama
familiar entre um pai e seus dois filhos, após o abandono da mãe, que vai embora e nunca
mais retorna. A trama acompanha as vivências de Kelton Dionti, de apenas 13 anos, que
passa pela experiência do primeiro amor com a personagem Sofia, enquanto lida com o
abandono maternal. A Família Dionti apresenta uma perspectiva nostálgica sobre a infância,
tendo o realismo fantástico como uma de suas principais características.
Nesse contexto, o realismo fantástico é um estilo literário em que acontecimentos
extraordinários ou sobrenaturais são apresentados como parte natural da vida cotidiana. Os
personagens geralmente não demonstram surpresa diante desses acontecimentos, fazendo
com que o real e o fantástico coexistam de maneira natural. Alan Minas utiliza esse recurso
de maneira singular.
Em A Família Dionti, há cenas em que o real e o irreal se misturam com tanta naturalidade que se cria uma atmosfera na qual os personagens parecem acreditar, quase inconscientemente, em um mundo simbólico.
No filme A Família Dionti os personagens apresentam características fora do comum. Em
uma das cenas, vários cidadãos procuram o mesmo médico para diferentes tipos de queixa:
uma mulher acredita que consegue escutar qualquer objeto feito de madeira falar, outra sente uma dor que descreve como se fosse a letra “R” na costela, outro diz que não controla as pernas. Em outra cena, essa característica fica ainda mais evidente quando Sofia, primeiro amor de Kelton, conta que dois de seus familiares se transformaram em girassóis. Esse universo simbólico, se aproxima do olhar infantil sobre o mundo, no qual a imaginação pode transformar a maneira de perceber a realidade.
Ambas as obras cinematográficas são interligadas pelo realismo fantástico e pelas
diferentes formas de representação do mundo infantil, revelando as maneiras singulares como os personagens principais enxergam a realidade. Por meio de suas dores, medos, afetos e sonhos, os filmes apresentam uma infância marcada pela imaginação e pela capacidade de enxergar possibilidades que ultrapassam o que é considerado real. Dessa forma, os filmes exaltam a importância da imaginação e da criatividade como formas de compreender o mundo e de representar as experiências da infância.
A partir disso, a realização da Mostra de Filmes sobre a Infância dentro da programação do
FIL reforça a importância do Festival como espaço de divulgação e acesso à produção
cultural voltada para o público infanto-juvenil. Ao apresentar obras como A Língua das
Coisas e A Família Dionti, o FIL contribui para ampliar o contato do público com diferentes
formas de representar a infância, dando visibilidade a produções que valorizam a imaginação, a criatividade e diferentes maneiras de enxergar o mundo.
Dessa forma, o Festival não apenas promove o acesso ao cinema, mas também aproxima essas produções de novos públicos e contribui para a valorização da cultura da infância.



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