O corpo envelhece, mas a alma não: Como o “Grande Circo Grandevo” aborda o envelhecimento.

Por Giovanna Gomes
O “Grande Circo Grandevo” é um espetáculo de marionetes de fio, com classificação
infantil, que faz parte da companhia Pequeno Teatro do Mundo. Nesse fim de semana, nos
dias 19 e 20 de setembro, o espetáculo se apresentou no Festival Internacional Intercâmbio de
Linguagens, o FIL, no CCBB.
Quando pensamos em espetáculos circenses, a primeira coisa que nos vem à cabeça são
corpos fortes e jovens, quase que inalcançáveis para quem acompanha os artistas na plateia.
Mas o que acontece quando esses corpos envelhecem? É esse novo olhar sobre o circo que o
“Grande Circo Grandevo” propõe para o público. De forma lúdica e divertida, que tira risadas
de quem assiste, independente da idade, o espetáculo apresenta Oswaldo, Suzette e Teófilo,
três marionetes que passaram a vida toda no circo, fazendo malabarismos, saltando de
trapézios e fazendo truques de mágica. Agora, estão todos idosos e precisam se reinventar
para continuar realizando suas apresentações.
O espetáculo conta com dois dramaturgos que controlam as estrelas do show, as marionetes.
Fábio Retti e Fabiana Vasconcelos são os responsáveis pela dramaturgia e direção do
“Grande Circo Grandevo”, onde transformam objetos inanimados em terem vida própria.
Fábio Retti explica que para a criação do espetáculo, foi feita uma pesquisa sobre o
envelhecimento e sobre o universo do circo. Foi por meio dessa análise, que o “Grande Circo
Grandevo” foi desenvolvido. “O que entendemos na pesquisa é que envelhecer é diferente de
debilidade, existem pessoas muito jovens com debilidades. Mas a sociedade associa uma
pessoa idosa a uma pessoa com debilidades”, esclarece Fábio na entrevista.
Com uma perspectiva sensível sobre o envelhecimento, o “Grande Circo Grandevo” mostra
para o público, não só infantil, mas de todas as idades, que envelhecer pode se tornar uma
fonte de inspiração e de superação contra desafios. “Idosos tem suas limitações, mas é preciso
aprender dentro dessas limitações o que se consegue fazer e brincar com isso, não parar de
fazer”, afirma o entrevistado. A partir dessa ideia, o espetáculo apresenta uma trupe de
marionetes que encontra novas formas de fazer circo, transformando suas limitações em
possibilidades para a criação.
É justamente nessa relação entre limites e possibilidades que surge a magia das marionetes.
Fábio explica que as marionetes são bonecos muito limitados e que um boneco mais lento
precisa de um treinamento específico para a sua manipulação - mas ele tem uma magia: ele
não faz o movimento, ele apenas o sugere e assim o movimento acontece apenas na cabeça
do telespectador. “O espetáculo não aconteceu no palco, aconteceu na cabeça de cada um que
assistiu, o próprio espectador completa o que o boneco não faz. Então a magia é muito mais
de quem assiste do que a gente que faz”, diz o entrevistado.
Essa relação também está presente no próprio processo de criação do espetáculo. “As
marionetes que mandam na gente, não a gente nelas. Quando a gente quer que façam um
negócio pode ter certeza que ele vai ser do contra”, afirma Fábio. A construção do espetáculo
se dá a partir dos movimentos da própria marionete, das coisas interessantes que eles fazem e
que assim criam uma personalidade própria. É dessa forma que a história é desenvolvida, a
partir de um trabalho de observação sobre a dinâmica de cada um dos personagens do
espetáculo.
A personalidade de cada marionete também contribui para aproximar o público da história.
O “Grande Circo Grandevo” cria essa relação por meio de interações diretas com a plateia,
fazendo com que o espectador não seja apenas alguém que observa, mas também participe da
experiência. Ao completar, em sua imaginação, os movimentos que as marionetes apenas
sugerem, o público passa a fazer parte da própria magia do espetáculo. Assim, “Grande Circo
Grandevo” consegue criar uma experiência de imersão de forma natural, do mesmo modo que
Oswaldo, Suzette e Teófilo realizam seus truques no circo.



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