Reminiscencia: O que fica de nós quando já não estivermos aqui?

Por Eduarda Mazzoni
Reminiscencia é um teatro documental com artes digitais criado e projetado por Malicho Vaca Valenzuela. Esse é um relato de alguém que conversou um pouco com Malicho e teve a oportunidade de não só assistir, mas viver e experienciar o teatro desse multiartista.
O espetáculo utiliza uma linguagem digital que promove uma identificação direta do público, especialmente por vivermos, atualmente, tão conectados à internet e às mídias digitais. Malicho conta sua história ao vivo - abre links, mapas, fotos e vídeos, projetando a tela do computador. Ele teve a ideia de fazer teatralmente seu relato no período da pandemia, em que o celular e as conferências online eram basicamente o único meio de comunicação entre as pessoas. Então esse formato traz também a memória de vivências que marcaram a sociedade durante a pandemia.
A sensação ao assistir Reminiscencia é literalmente de estar conversando com um amigo. Malicho busca trazer uma interação singela e íntima com o público, não só ao escancarar sua vida e alma para nós, mas também ao trazer um humor sensível e muitas interjeições ao espectador.
Do início ao fim, Malicho permeia a peça com questionamentos extremamente humanizados e reais sobre o mundo e sobre a memória, seja individual ou coletiva. “Para onde vão todas as memórias de um prédio que foi destruído?”, “Será que no final sobra algo de nós?”, “Quantas formas temos de lembrar de um lugar?”, “De que maneira queremos lembrá-lo?”, “Quantas pessoas passaram pela primeira vez ou pela última vez nesse hospital?”, “O que significa grafitar um lugar que não está lá para ser grafitado?” e “Uma cidade destruída deixa de ser uma cidade?”. É por meio dessas e muitas outras indagações que a peça mantém o espectador não só entretido como pensativo sobre quais poderiam ser as respostas para tantas perguntas que não são fáceis de responder.
Malicho, ao navegar por imagens que podemos encontrar no google maps, se empenha em trazer diferentes visões e significados de uma mesma cena, justamente para nos fazer refletir sobre como um dia, um lugar, um instante pode ter um significado para alguém e outro completamente diferente para outra pessoa. Nessa atenção aos detalhes, ele acabou encontrando coisas lindas e importantes, como declarações de amor marcadas em pedra e vestígios temporais de desconhecidos.
É impossível escrever esse relato sem dar destaque aos avós de Malicho, que são literalmente o coração do espetáculo. O registro sobre os avós mostra basicamente a história de amor deles, com destaque para a música, que é algo importante na vida dos dois. A música, inclusive, é um fio condutor essencial para a peça. O artista inicia e finaliza o espetáculo pedindo que o público cante com ele a música “Sin Ti” de Los Panchos. Essa música é a favorita da avó de Malicho, que hoje lida com o Alzheimer. O artista conta ao público que o seu avô descobriu acidentalmente que a música ajuda a ativar a memória da esposa. Assim, a razão da presença dessa canção se multiplica. Ouvir “Sin Ti” e nos juntarmos a Malicho para cantar ao final do espetáculo emociona.
As questões sociais e políticas também permeiam a peça como um todo, principalmente por meio de fotos e vídeos das manifestações sociais de 2019 que ocorreram no Chile, das quais Malicho participou. Ele traz o público para vivenciar o que foram as revoltas e enxergar as marcas de violência social presentes na história da América Latina. É extremamente interessante porque esse tópico circunda a memória coletiva de Santiago e do próprio Malicho, ao mesmo tempo que também gera uma identificação direta com qualquer cidadão latino-americano.
Durante a entrevista, Malicho disse que adoraria que o público levasse desse espetáculo a reflexão sobre suas próprias memórias. Acredito que o artista conseguiu atingir esse objetivo. É quase impossível você sair da peça sem ter pensado nos seus próprios avós e na sua história individual. Ao final dessa experiência, o público reflete, adere e acaba fazendo questionamentos sobre suas recordações e vivências.
Como uma pessoa extremamente nostálgica, habituada a guardar memórias afetivas, como cartas, bilhetes, ingressos de shows, fotos e diversos objetos que de alguma maneira me marcaram, observar as memórias guardadas de Malicho expostas daquela maneira me fez lembrar das minhas próprias e da maneira que elas me fazem ser quem eu sou. Reminiscencia, para mim, é lembrar que, no fim, talvez sejamos exatamente isso: uma coleção de quem amamos, do que vivemos e do que insistimos em não deixar cair no esquecimento.



Que texto lindo, queria muito poder ter assistido ao Reminiscencias, mas ao ler sinto que tbm vi um pouco