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Reminiscencia: o que significa um lugar para além do seu conteúdo histórico?

Writer: anacpintofil
anacpintofil
Sep 24
3 min read


Por Luiza Xavier

Na quinta-feira, dia 19 de setembro, foi aberta a programação do FIL, Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens, no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) do Rio de Janeiro. O FIL acontece há mais de 24 anos e é considerado Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro, realizado em parceria com a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, a Secretaria Municipal de Cultura e o Banco do Brasil.


Nós, alunos da UFRJ, devido a uma parceria entre o FIL e a Escola de Comunicação, temos a oportunidade de, todo ano, participar desse evento como "observadores". Ganhamos horas extras e reconhecimento por estarmos no evento, porém, muito mais que isso, obtemos vivência, movimento e conhecimento.


"No FIL Festival, a experiência poética começa quando aquilo que vemos nos transporta para além do que está diante dos nossos olhos" — é o que a organização do FIL objetiva.

A ideia é que para além de uma troca de diferentes subjetividades, há a compreensão de todos os sentidos englobados na linguagem. O Rio recebe inúmeras atrações estrangeiras (Espanha, Chile, Argentina, outros estados do Brasil) que contam suas histórias exibindo de forma contrastante o clássico, o digital, o moderno e o tradicional.


Na quinta, pude conhecer um pouquinho mais do Chile e da história de Malicho Vaca Venezuela, que uniu traços de sua vida pessoal à trajetória de luta e resistência de Santiago, sua cidade natal. É difícil escrever sobre "Reminiscência". São tantas emoções, memórias e trocas que é difícil não sair do teatro emocionado e reflexivo.


Importante citar que o teatro mistura o físico com o digital. Malicho senta na frente de um computador, em cima do palco, e começa a narrar sua história de uma forma um tanto inusitada: pela plataforma on-line de videochamadas Zoom — popular na época da pandemia, em que quase tudo se tornou virtual.


O artista já começa a peça interagindo com o público, o que cria uma conexão imediata com sua história. Tudo é muito bem pensado, muito bem contado. Conhecemos pequeninos detalhes de sua história, desde o lugar onde Malicho estudou e as pequenas rachaduras no chão, até locais onde ocorreram grandes movimentos de luta social e histórica do Chile.


Ao passarmos por todos esses locais, o artista nos faz refletir: o que significa um lugar para além do seu conteúdo histórico?


Todos os ambientes que frequentamos existem desde antes de nós. Um terreno vazio, apenas com terra e uma grama fofa, já teve uma história para além da nossa compreensão. Ali, pode ter sido um espaço de afeto, lembranças, individualidades. E o tempo marca isso.

"Quantas maneiras temos de lembrar de um espaço? De um lugar? De que forma queremos lembrá-los?" — Malicho.


A boa sacada de Malicho vem da sua capacidade de pegar o digital, inserido já no nosso cotidiano, e utilizá-lo da forma mais vulnerável. Como é possível simples locais, vídeos e imagens de uma pessoa até então desconhecida se tornarem tão cativantes e identificáveis em apenas uma hora?


Uma imagem carrega em si símbolos, camadas. Eu poderia trazer aqui no texto estudos que comprovam a complexidade de uma imagem e seus entendimentos, como os do filósofo Roland Barthes, ou até de Saussure, que fala um pouco mais sobre a linguística e sobre a forma como associamos uma palavra a uma imagem mental. Mas não acho que nada disso seja necessário para exprimir toda a emoção que Malicho traz em sua obra.


Ele participou de lutas sociais, como um artista emergente, pedindo por liberdade e melhor educação para seu país. Reminiscência nos permite observar tudo isso, enquanto conhecemos suas motivações e afetos. Malicho, ao contar (ou melhor, mostrar, por meio de filmagens e fotos) sua relação com os seus avós, me tocou de forma muito pessoal e individual. E acredito que esse é o poder da arte.


Eu, autora desse texto, tenho minha própria história de vida e particularidades: sou brasileira, tenho 20 anos e sou jornalista em formação. Mas, ainda assim, a trajetória de Malicho Vaca, ator e diretor, chileno, de 38 anos, me evocou emoção, identificação e paixão.

Afinal, é para isso que a arte serve.


Malicho, pela sua arte, expressou suas emoções, sua vulnerabilidade, cultura e história; e nós, espectadores, absorvemos e consumimos essa arte. Com todas as minhas particularidades e individualidades, descrevo uma experiência marcada por paixão, apreciação e compreensão, por toda a bela história de Malicho.


Reminiscência, criada no quarto do artista em 2020, agora viaja por diferentes culturas, países e populações, permitindo que todos vivenciem uma obra política, social e emotiva.


 
 
 

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