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Se for imigrar, que seja por amor.

Writer: anacpintofil
anacpintofil
Oct 1
4 min read

Por Maria Catarina Moreira Patrocinio

Estive no CCBB na sexta-feira (18 de setembro) para assistir a um dos espetáculos do FIL

Festival, "Con un Kilo de Harina", e saí de lá com muitas reflexões sobre como o artista Fernán foi capaz de me fazer enxergar a imigração pela perspectiva do amor, apenas com um quilo de farinha e alguns utensílios de cozinha.


Na peça, o artista conta a história de três gerações de sua família, começando em seu avô, Giuseppe, e terminando nele próprio. Giuseppe, italiano de berço e de coração, ainda muito jovem, decidiu deixar o país da massa e se mudar para a Argentina, deixando para trás os pais e Marguerita, a mulher que amava, na esperança de um dia lhes dar uma vida melhor. Giuseppe arruma um emprego e trabalha duro por bastante tempo, enfrentando uma rotina cansativa longe de seus entes queridos e inserido em uma cultura completamente nova. Passado um tempo, Marguerita também toma rumo para a Argentina a fim de reencontrar Giuseppe e, juntos, abrem uma pizzaria.


Durante o período de adaptação, ambos sofreram muito devido às diversas dificuldades que acompanham o cotidiano de um imigrante, mas, juntos, se apoiaram na memória afetiva provocada pela farinha, forno e receitas italianas e encontraram forças para superar tudo e prosperar.


Desde pequena, ouço histórias sobre o quanto é dura a jornada de quem migra. Afinal, se adaptar a uma nova realidade, longe das pessoas que você ama e com quem tem afinidade, e ainda ter que lidar com vários tipos de preconceito, definitivamente não é fácil.

Enquanto via Fernán amassar a farinha em cena, me peguei em um exercício de empatia: imaginei ter que abandonar minha família e meus amigos porque as oportunidades de proporcionar uma vida confortável para mim e para quem eu amo, no meu país, já não são suficientes.


Me perguntei várias vezes ao longo do espetáculo se teria coragem de migrar e se minhas motivações seriam boas o suficiente para que eu arrumasse as malas e cruzasse um oceano. O que, de fato, faz uma pessoa tomar uma decisão tão radical? Falta de esperança? Condições de pobreza tão extremas que se tornaram insustentáveis? A ausência de uma perspectiva de futuro no seu país? Todas são razões extremamente plausíveis, é claro, mas nenhuma delas seria suficiente para que eu fosse sem olhar pra trás.


Quando se deixa a família e a cultura de origem, repensar se torna uma prática diária. O sonho de conseguir dinheiro para reencontrar seus parentes passa a te acompanhar todas as noites. Assim como Giuseppe e Marguerita, que abriram uma pizzaria, tentar trazer sua cultura para a nova rotina e torná-la pelo menos um pouquinho parecida com a antiga não é uma fase, é um hábito que te acompanha para sempre.


Não precisei ir muito longe para encontrar um cenário fora da ficção. Enquanto Giuseppe

atravessava um oceano, hoje milhares atravessam a fronteira que separa Roraima da

Venezuela, carregando a mesma bagagem invisível: receitas, sotaques, fotografias amassadas,e tudo o que cabe e não cabe na mala. Ali na fronteira norte do Brasil, venezuelanos buscam o mesmo que Giuseppe buscou há mais de um século: trabalho, dignidade e um recomeço. Tal como ele, muitos chegam sem nada além da própria trajetória e encontram um país que nem sempre os recebe de braços abertos.


Esse é apenas um dos milhares de exemplos de que a xenofobia, o trabalho precário e a saudade de casa não são exclusividade de uma Itália do início do século XX; são, infelizmente, parte da vivência de todo imigrante, em qualquer tempo e lugar. Entretanto, diante da reflexão que a mensagem de Fernán me provocou, também enxergo um lado bonito na imigração.


Ainda que existam inúmeras dificuldades no processo, a coragem e a determinação de mudar completamente seu estilo de vida a fim de garantir conforto e estabilidade para as pessoas que você ama é uma atitude admirável.


Voltando à questão das motivações, acredito que todos os motivos claros que levam uma pessoa a tomar essa decisão andam de mãos dadas com um sentimento capaz de fazer o ser humano dar a volta ao mundo, se preciso for: o amor. Não estou tentando romantizar um processo que, para milhões de pessoas, é majoritariamente marcado por dor, perda e recomeços forçados, mas é impossível ignorar que, no centro de cada decisão de partir, existe sempre alguém, ou algo, que se ama o suficiente para arriscar tudo por ele.


É esse, talvez, o maior acerto de Fernán: transformar uma história de deslocamento em uma narrativa de afeto, sem negar os obstáculos, mas sem deixar que eles apaguem o que sustenta a travessia. Não é à toa que ele encerra o espetáculo com uma reflexão que resume tudo o que assisti no CCBB naquela quinta-feira: se você for imigrar, que seja por amor.


Depois de acompanhar Giuseppe, Marguerita e, por fim, o próprio Fernán, entendi que talvez não exista imigração sem amor. Seja pelo que se deixou para trás, pelo que se busca lá na frente, ou por quem se carrega durante todo o processo.



 
 
 

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