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Impossível não se sentir aconchegado por tata o travesseiro

Updated: Nov 17


Foto: acervo pessoal

Elisa Rios, Observadora FIL, extensionista ECO/UFRJ


Se tivesse que ser identificado o lugar de onde vem o enredo de Tata - O travesseiro esse lugar seria o coração. Em todos os seus detalhes a peça se mostra minuciosa, especialmente ao abordar elementos dolorosos dos aspectos afetivos da vida de Lipe, o personagem apaixonante que dá vida a um travesseiro.


As dores que nascem da separação dos pais, da adoção, do preconceito e da solidão não são ignoradas. Com sensibilidade, são usadas para construir um universo multifacetado criativo e infantil com a esperança que somente uma criança pode ter, enfatizada pelas experiências de Lipe.


A estética da produção contribui para a imersão nos sentimentos que a história propõe. Ali você aprende que existem cores e ritmos do amor, da esperança e de felicidade. Tudo se passa num mesmo cenário, mas nada fica igual. Cada cena é única em expressão e propõe uma reflexão diferente. Tudo contribui para a captura do olhar e do coração do espectador. O foco da criança vai para as cores e os movimentos - e muitas vezes durante a apresentação ouvimos o cochichar de um pequeno ou outro sobre a beleza das luzes e colorações.


Ao ser perguntado sobre a peça, Tata Oliveira, ator da artesanal companhia de teatro se emocionou ao falar da trama e da personagem principal, o menino Lipe:


A quanto tempo vocês apresentam o espetáculo?


Esse trabalho é de 2019. A gente estreou em São Paulo, no teatro Sesi na Avenida Paulista, depois viemos pra cá, pro CCBB. Fizemos uma temporada aqui e a gente tinha uma agenda longa pra fazer circulação com esse espetáculo. Mas… 2020, a pandemia veio, e a gente teve que encerrar os trabalhos . Aí voltamos esse ano, no primeiro e segundo semestre, e agora estamos finalizando aqui no FIL


Tem já uma estrada, que legal! Qual foi a reação da plateia mais inusitada que você já presenciou?


Nossa... Assim, reação é uma categoria à parte, né? Tem desde as engraçadas, as poéticas, as representativas… O Lipe é um boneco negro, né? A gente quando estreou em São Paulo, fazia sábado e domingo para público normal e quinta e sexta para escolas. Quando era pra escola era aquele teatro lotado, e muita criança negra, meninos e meninas. E era impressionante, sempre é, ver como eles se identificam com o Lipe, num lugar de protagonismo, de coragem, de vencer, de enfrentar os medos, na maneira que eles olham pra esse menino e podem se identificar e, enfim, manter aquela referência como algo positivo, algo que eles também podem ser.


Sim, eu mesma me emocionei bastante assistindo a peça por isso!


Agora, falando com você, eu também… marejou aqui, porque realmente é muito potente isso. Não sou negro, mas eu consigo perceber isso. Recentemente teve uma mulher adulta que terminou o espetáculo, e ela ficou quietinha esperando. Eu perguntei se ela queria tirar uma foto, e ela respondeu (voz de entusiasmo): Quero! Ela foi tirar a foto, e deu um abraço forte nele, (lipe, que estava no colo do ator), e disse: Muito obrigada por você existir. Fico arrepiado, porque pra a gente que é artista é como se nosso trabalho fosse recompensado.


O ator termina a fala chorando, e eu, entrevistadora, também. Nos abraçamos.


A fala de Tatá apenas reforça que Lipe não é só um boneco, não é só um travesseiro. As cores não são apenas aparatos visuais e a apresentação não é só um momento. Tudo em Tatá o travesseiro conversa e ecoa na mente e no coração do atento espectador. É impossível não amar o espetáculo, ou não amar no espetáculo Tata, o travesseiro.

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