• Anne Poly

Ópera inclusiva: o desafio de apresentar música clássica para novas audiências


Anne Poly


Convidados e mediadora da mesa/Fonte: YouTube


Ópera. Em italiano, significa “obra”. Esse gênero artístico teatral, originado do século XVII, normalmente apresenta um público bem definido. O problema, no entanto, é que, para que essa arte não seja esquecida, é preciso mais do que o alcance de uma audiência limitada. A partir disso, surge um desafio: como a ópera pode tomar novas dimensões e enfim encontrar novos públicos, que poderão mantê-la viva? O tema do Encontro De Saberes do FIL da última sexta-feira foi sobre isso. “A ópera para novos públicos”, mediada por Adriana Didier – presidente do Foro Latino-americano de Educação Musical, teve como convidados Carol McDavit, Alessandro Di Profio e Ligiana Costa. Os três apresentam nacionalidades e vivências distintas, capazes de trazer experiências únicas acerca de novas formas de direcionar a ópera para diferentes audiências.


O italiano Alessandro Di Profio, musicólogo e professor da Sorbonne em Paris, foi quem iniciou a pauta. Suas falas foram traduzidas simultaneamente pelo Fil. Com o uso do compartilhamento de tela, ele mostrou alguns projetos dos quais fez parte. Neles, a ópera foi apresentada de formas bastante criativas. Di Profio participou da organização do Concerto no Escuro, espetáculo no qual a audiência tinha que utilizar uma venda sob os olhos. A experiência proporcionou a plena concentração do público, que era envolto na atmosfera da apresentação. Cinco edições do concerto já foram feitas, e ele tem um considerável público jovem.


No que diz respeito a estratégias para o alcance de novas audiências, ele abordou um trabalhos com bairros economicamente desfavorecidos, direcionados para aqueles que não podem comprar ingresso. Além disso, outra estratégia chamou a atenção da audiência do Fil: concertos produzidos especialmente para autistas e seus familiares. Segundo ele, isso proporciona não só uma fuga do cotidiano, como também acolhe esse público, muitas vezes marginalizado pela sociedade e excluído de eventos. Alessandro disse que a música é a única linguagem possível para autistas que não conseguem se comunicar com o mundo externo. Por isso, seu objetivo passou a se associá-los aos concertos. O objetivo do italiano é atrair públicos diferentes para seus concertos. A faixa etária dos amantes da ópera gira em torno dos 50 anos ou mais. Seu propósito é atrair jovens. Por isso, jovens músicos são colocados em posição de destaque em alguns concertos. Isso atrai o público almejado, que se identifica com os artistas.


A estadunidense Carol McDavit é cantora lírica e doutora em música, e a maior parte do seu trabalho é realizada no Brasil. Devido a problemas técnicos durante a live, parte da sua apresentação não foi reproduzida para o público, mas isso não impediu Carol de mostrar seu interesse na ópera inclusiva. Como professora de canto da UNIRIO, ela teve a percepção de que seus alunos não conheciam muito acerca da música clássica. Por isso, em 2008 ela criou uma oficina para desenvolver técnicas musicais e teatrais aplicadas à ópera. Seu objetivo é não só despertar o interesse na arte, como também capacitar possíveis cantores de ópera. As apresentações da oficina e os bastidores são compostos integralmente por alunos, que organizam os concertos e aprendem na prática. Os estilos dos espetáculos são variados, para que jovens cantores criem repertório dentro do meio musical. Dentre muitas apresentações em escolas, ela citou o Colégio Pedro II ,onde muitas crianças foram introduzidas ao mundo da ópera pela primeira vez. Também contou durante a live que levou apresentações para colégios de pessoas com deficiência, e comentou como era bonito ver a interação deles com os concertos. Seus projetos, de modo geral, atraem públicos que passam a ter a experiência inicial com a música clássica, tanto em comunidades quanto em escolas.


A brasileira Ligiana Costa é cantora lírica e escritora premiada. Na sua vez de apresentar, mostrou como tem levado a ópera à plataforma digital. Ela dirige o podcast do Teatro Municipal de São Paulo. Em seu Instagram e no canal do YouTube do Teatro, dá aulas sobre ópera, transmitindo o conhecimento que tem para aqueles que desejam se aprofundar no mundo da música clássica. Ligiana utiliza a internet para alcançar novos públicos. Na live, ela disse que entrevistar o público que frequenta concertos de ópera, revelou a variedade cada vez maior de amantes dessa arte. Segundo a cantora, o preconceito impede as pessoas de terem a percepção acerca da amplitude dos indivíduos que se interessam nessa área.


Por fim, os três convidados responderam perguntas sobre suas experiências no assunto em pauta e discorreram a respeito de projetos futuros. Eles responderam com clareza, procurando esclarecer qualquer dúvida quanto aos seus objetivos profissionais. A mesa “A ópera para novos públicos” foi responsável por um intercâmbio cultural enriquecedor, e provou para a audiência o cuidado excepcional que profissionais da ópera por todo o mundo têm tido para que essa obra não morra com o tempo. Apresentando a ópera para os mais diversos públicos, explicando a arte e até mesmo introduzindo seus princípios no mundo digital, eles imortalizam o poder transformador da música. A live pode ser vista no canal do YouTube do FIL.

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