• Dora Lutz

Entrevista de 2005 com Jean Luc Ronget

Em 2005, na segunda edição do FIL, Karen Acioly realizou uma entrevista com Jean Luc Ronget, artista que marcou o festival durante toda a sua jornada e que, este ano (2021) será homenageado na 18a edição do FIL no domingo, 21/03, às 19h. Recuperamos esta entrevista como forma de honrar e relembrar a memória deste grande artista, pai e amigo.



Conte um pouco sobre você.


Meu nome é Jean-Luc Ronget, sou francês e sou percussionista. Faz 20 anos que eu toco percussão, que eu vivo da percussão e em paralelo, faz 15 anos que eu faço espetáculos para crianças, mas são espetáculos musicais com muito texto e para crianças maiores, de 7 anos. Esse é meu primeiro espetáculo de marionetes e estou muito feliz de apresentá-lo no Brasil.


Como chegou a escolher essa profissão?


O que me levou ao teatro de marionete é ume historia estranha, quer dizer, fui solicitado para substituir alguém que não podia ir a um festival. Então no começo, eu pensei, é como uma substituição, vou pegar umas coisas que já existem e improvisar alguma coisa e vai ficar bom. Mas eu não quis ficar só nisso e resolvi inventar alguma coisa, fazer outra coisa,. Ainda por cima era para crianças muito pequenas, então queria alguma coisa que correspondesse a atenção deles. Aí eu me lembrei que quando eu era criança, eu brincava de fazer um dinossauro com as minhas mãos e quando eu vi passar o meu gato Robert, tentei imitar tudo que ele estava fazendo e quando eu vi que funcionava, peguei um espelho e me dei conta em frente do espelho que tinha muitas expressões que funcionavam… e eu continuei assim, eu não tinha muito tempo, exatamente 3 semanas para montar esse espetáculo depois eu trabalhei mais e quando eu vi que funcionava, eu trabalhei ainda mais um pouco durante uma semana e pouco a pouco ele foi se aperfeiçoando. Essa é a minha história. É isso.


Como é trabalhar com crianças?


O que me interessa nessa forma de espetáculo, é que eu tento chegar no essencial, ou seja, não tem cenário inútil, tudo é preto, meu rosto aparece porque não dá para fazer sem. Eu participo um pouco, mas se eu pudesse desaparecer completamente seria perfeito. É isso, o que eu mostro para as crianças, é que só com as mãos a gente pode contar histórias sem texto e a gente pode contar uma longa história. Inclusive, o próximo espetáculo que eu estou preparando vai durar uma hora, vai ser com 2 manipuladores de mãos, vai ter objetos. Mas é isso, é uma busca do essencial, vamos dizer, e eu acho que isso é um pouco a busca na minha vida, e, claro, só pode corresponder ao meu trabalho.


E você acha que com crianças essa busca do essencial é mais fácil?


Eu acho que as crianças infelizmente estão muito ligados nas coisas inúteis, nas imagens, na televisão. Eles estão entupidos de muitas coisas ruins para o meu gosto e talvez seja uma maneira de ensinar a eles a voltar para as coisas mais simples como quando eu era criança ou meus pais. A gente brincava com um pedaço de madeira e se tornava um personagem, se tornava um veículo, se tornava uma arma, se tornava muitas coisas. Mas agora, a gente precisa de coisas imitando perfeitamente então talvez seja um pouco para trazê-los de volta para jogos simples. Além disso, a gente tem nossas mãos permanentemente com a gente. Inclusive, eu estou feliz de fazer uma oficina com essas crianças para ensinar elas a achar várias ideias, a fabricar coisas...é isso.


Como recebeu o convite para o intercâmbio?


Karen Acioly foi à França para achar espetáculos, alguns espetáculos franceses e eu tive a sorte do meu espetáculo ter sido reconhecido pela ONDA. Brigitte Chafaud falou para Karen desse espetáculo e ela foi assistir adorou. É graças a Karen, entre outros, enfim, essencialmente, que eu estou aqui como todos meus colegas franceses.


Expectativas antes de vir para o Brasil ? O Resultado corresponde?


É verdade é que a imagem que nós franceses ou europeus temos do Brasil é a de festa, são as cores, é a dança, é a música. Eu me perguntei muito, eu pensei "será que esse gênero de forma reduzida com poucos movimentos, será que essa forma vai funcionar?". E eu estou agradavelmente surpreso, porque eu me dei conta de que os tanto os menores como os maiores aderiram completamente a essa forma de espetáculo. Acho que é novo para eles e talvez eles estejam surpresos e eu estou ainda mais surpreso. Inclusive, eu estou realizado pelas reações do público.


Fale-nos sobre a importância do intercâmbio ?

Para a gente, é importante ver que o trabalho pode se deslocar em outros países com outras culturas. E isso prova, na minha opinião, que quando a gente trabalha profundamente um espetáculo como esse em que não tem texto, a gente deve ir muito muito longe, a gente deve ser íntegro e contar historias que podem falar com todo o mundo. E a experiência do Brasil, do Rio, para mim, é maravilhosa porque eu percebo que meu trabalho pode ser exportado e não é só o fato de viajar. Inclusive, agradeço a Karen por ter trazido a gente aqui porque é um país que a gente tem vontade de descobrirhá muito tempo - mas é bom poder compartilhar nossa arte além das fronteiras.


O que aprendeu dos brasileiros?


Não posso responder ainda. Só depois das oficinas.


Alguma coisa para acrescentar?


Ah sim, estou feliz, só quero acrescentar uma coisa: é que eu vivo há 20 anos com a música e espetáculos com muito texto, como eu dizia naquela hora, tinha muita música e eu vejo que essa forma de expressão é o que me corresponde perfeitamente, me sinto perfeitamente bem com essa forma porque não precisa de palavras para falar as coisas, para falar a tristeza, pra falar a alegria é só isso.. .então é um trabalho de concentração e, mais uma vez, é uma busca do essencial… é isso.


Vai continuar a fazer esse trabalho? Quer voltar?


Voltar aqui? Certamente! Isso é claro, mas agora que eu fui nessa direção eu estou inclusive deixando a música de lado, estou escrevendo espetáculos assim, aonde a gente trabalha com as mãos. Então eu estou me lançando na marionete, eu vou tentar viver essa experiência o mais profundamente possível porque eu não tenho a pretensão de ser marionetista, é meu primeiro espetáculo, mais tarde a gente vê se eu posso falar que eu sou marionetista. Mas, de qualquer jeito, tenho vontade de continuar nisso e o próximo espetáculo que vai estrear em 2007, – e a gente vai viajar muito com esse – será em torno das mãos, teatro de objetos e dessa vez não vai ser mudo mas com “gromelôs”, com onomatopéias mas sem texto de todo jeito e com um músico ao vivo.


Gosta mais duma parte ou outra do espetáculo? E o publico?

Não, não, porque é uma historia. Do começo até o final, tudo é ligado. Eu poderia separar as cenas, é verdade, mas eu não tenho nenhuma preferência. É como quando a gente faz uma música ou um quadro. Cada toque é importante, cada nota é importante. E é cada uma dessas coisas que vai formar uma música ou um quadro. Então nesse caso, para mim é a mesma coisa. Eu não acho que o público tenha prferências. Tem alguns toques de humor que agradam mais as crianças, mas está variando muito de um publico para o outro, então não.


A relação afetiva com seus personagens?


Excelente pergunta! É verdade que é espantoso, vivo isso de uma maneira estranha no sentido que quando eu começo, eu faço (sopra na mão, bicho aparece) meu cérebro vai ali, tenho a impressão de que... eu estou completamente em fase com ele. Para mim, não são mais minhas mãos é realmente um personagem. Cada movimento é como se eu estivesse fazendo, poderia quase fazer junto, devagar, me coçando. Então eu vivo completamente com ele e depois vivo com os 2, porque tem a amiga dele que vai chegar e é verdade que tem alguma coisa de muito afetivo, eu estou muito ligado a esses personagens e a partir do momento que eu tiro isso, voltam a ser minhas mãos. A partir do momento em que tem esse objeto… não me pertence mais, é um personagem por inteiro. Um pedaço do meu cérebro vai dentro e… cada um deveria ter um pequeno Tékimoi em casa.

Tékimoi, em francês, é um jogo de palavras, quer dizer que é uma pergunta que a gente se faz, que todo mundo se faz: quem eu sou? Eu sou quem, eu? E é como se eu falasse para mim mesmo: “mas você é quem, você?” então ficou “Você é quem, eu?”


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