• Dora Lutz

Regina Michelli fala sobre o estranho na literatura

Updated: Mar 24



Regina Michelli é professora associada da UERJ, atua na Graduação e no Programa de Pós-Graduação em Letras com o projeto de pesquisa intitulado "Literatura para crianças e jovens: narrativas de ontem e de hoje" e participará da mesa "Monstros, medos e outras criaturas" no dia 26/03, sexta, às 18h. Para já ajudara sanar algumas de nossas dúvidas, Regina concordou em nos conceder a seguinte entrevista.


1 - Como universos literários repletos de monstros e outros seres estranhos podem estimular a criatividade?


Monstros e seres estranhos pertencem, em princípio, a um universo que não se insere no nosso cotidiano. Claro que não me refiro aos monstros morais, aos seres que nos chocam com ações completamente irracionais face ao conhecimento científico atual ou ao mundo empírico em que vivemos. A pergunta me remete ao universo fantástico, configurado como “extra-ordinário”, afastado da norma, do que é conhecido. A literatura fantástica tem, por característica, seres, objetos ou eventos sobrenaturais.

O contato com personagens dotados de poderes mágicos em livros, filmes ou jogos aciona, de certa forma, um exercício epistemológico de se abrir a novas possibilidades, ainda que ficcionais. O leitor, o expectador ou mesmo o participante do game imergem na trama narrativa, vibram com as provas da heroína ou do herói, temem a ação vilanesca mortal, assustam-se com territórios assombrados ou espaços inusitados, por vezes conduzindo a ação para tempos também outros, quer no passado insuspeitado, quer num futuro distópico ou de ficção científica, algumas vezes até mesmo num presente insólito. Interagir com situações ficcionais dessa natureza pode promover um alargamento de consciência do ser humano, proporcionando, por alguns instantes, vivências para além da inserção em um cotidiano previsível, comum.

A criatividade opera efetivando conexões singulares, inusitadas. Ser criativo é promover o novo, por mais que esse novo seja constituído por retalhos do passado, pois a combinação desses elementos em uma ação criativa figura originalidade.

Assim, levar crianças e jovens a ler ou ter contato com obras literárias cujas personagens podem ser monstros, fadas, bruxas, ogros, ETs e seres estranhos pode estimular a criatividade ao trazer, para universos literários, o insólito, o diferente, o inimaginável. A metamorfose, processo muitas vezes presente nessas histórias, é um convite a transformações, a se arriscar por novos territórios.

O contato com narrativas fantásticas, sejam elas literárias ou fílmicas, permite ainda experimentar a alteridade a partir de vivências em um mundo que, sendo ainda o nosso, pode ser profundamente diverso dele. Oportunizar a vivência com o diferente pode ser essencial para que floresça a empatia pelo outro, tão necessária no nosso mundo contemporâneo.


2 - Qual é a importância da criação e manutenção de espaços como o Encontros com a Literatura Infantil/Juvenil (EnLIJ) dentro das universidades?


O EnLIJ é um grupo de pesquisa, certificado pela UERJ junto ao CNPq, que agrega professores, alunos e ex-alunos da graduação, do mestrado e do doutorado ligados a esses professores. A Literatura Infantil/Juvenil ou Infantojuvenil ainda recebe um certo olhar de demérito, como se fosse uma literatura menor, dirigida a seres ainda em formação e, portanto, sem condições de realizar leituras proficientes, logo, a literatura dirigida a esses seres carece de estar nesse nível “menor”, intelectual e linguístico, de crianças e jovens. Há, nessa frase, vários equívocos. Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar que juntarmos as crianças e as colocarmos todas sob uma única designação é um grande erro: de que crianças falamos? A infância quase nunca é período de felicidade sem enfrentamentos diante das agruras da vida. Cada criança tem experiências e percepções próprias. Em segundo lugar, é grave erro subestimar a inteligência não só de crianças e jovens, como de quem quer que seja. Em formação, estamos todos nós, seres humanos, enquanto alimentarmos a condição de viventes com sonhos e planos, independentemente da idade. Não é a idade que define o ser, mas a sua capacidade de sonhar e realizar. Passemos, agora, à Literatura Infantil/Juvenil, também cercada de concepções que ferem seu estatuto literário na frase acima.

A obra literária destinada a crianças e jovens, de fato literária e não apenas livro, permite a leitura interessada do adulto. Ela não se esgota no destinatário infantojuvenil: pode ser lida também pela criança, mas não exclusivamente por ela. Literatura pressupõe um discurso plurissignificativo, aberto a novas interpretações e perspectivas de leitura. Literatura implica densidade de discurso, cuja leitura assinala o desvelamento de camadas significativas: quanto maior a experiência leitora e de vida maior a viagem de descoberta por essas camadas, pelas trilhas deixadas ao longo de frases, parágrafos, estrofes... A criança vai entender o que estiver a seu alcance, o que a sua maturidade lhe permitir. Por seu turno, a obra deveras literária se oferece para novos encontros ao longo da vida: a cada leitura de um texto literário outras compreensões se formam, desdobrando-se as leituras em novas significações. Literatura é convite aberto a aventuras.

Assim, é importantíssimo projetos de pesquisa que tenham por objeto de estudo a literatura potencialmente destinada a crianças e jovens no âmbito universitário, não apenas para tentar desfazer preconceitos que ainda rondam essa literatura, como pelo fato de que nossas crianças e jovens merecem o melhor. Elas merecem vivenciar todas as oportunidades possíveis para se tornarem cidadãos conscientes de si e do mundo em que se inserem. O texto que mais pode promover uma visão crítica de si, do outro e do mundo é o literário, porque não oferece receitas prontas de bem viver, nem dita normas de conduta, antes instiga à reflexão. É importante que pesquisas analisem esse repertório de obras literárias destinadas a crianças e jovens, estimulando novas investigações. É também fundamental que esses estudos não se encastelem nas universidades e cheguem a responsáveis, professores e demais profissionais ligados à Literatura Infantojuvenil, o que os meios de comunicação atuais facilitam bastante.

Nesse sentido, junto ao projeto de pesquisa EnLIJ há o NELIJ-UERJ, o Núcleo de Estudos em Literatura Infantojuvenil da UERJ, projeto de extensão que objetiva o diálogo entre a comunidade interna, caracterizada por funcionários e alunos, e a externa, abarcando todos os interessados, nessa literatura, além dos muros da UERJ. Como ações do projeto, convidamos escritores, ilustradores e tradutores para lives mediadas por alunos da graduação e da pós, bem como egressos que se mantêm ligados ao Núcleo; promovemos congressos e seminários de estudos teóricos e práticos sobre temas específicos de Literatura Infantojuvenil e desenvolvemos o Conexões Universitárias, operacionalizando trocas com alunos de outras universidades acerca das pesquisas empreendidas.

A Literatura Infantojuvenil carece e merece as iniciativas realizadas em todos os âmbitos para que obtenha, cada vez mais, visibilidade no cenário principalmente brasileiro.


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