O fantástico universo do terror infantil na literatura brasileira
- Anne Poly
- Mar 27, 2021
- 4 min read
Anne Poly

A mediadora Regina e os convidados da mesa/Fonte: YouTube
O monstro é algo que foge do esperado. Essa fala de Aristóteles diz muito sobre a mesa do Encontro de Saberes do FIL, realizado no dia 26 de março. O tema "Monstros, medos e outras criaturas” foi comentado pelos convidados Alexandre de Castro, Felipe Campos e Luisa Bê. Regina Michelli foi a mediadora da mesa. Eles discorreram acerca do medo na literatura infantil segundo suas áreas de pesquisa. O terror infantil nem sempre é visto como algo positivo, mas as perspectivas dos palestrantes tiveram o propósito de expor o que há de fantástico nessa área da literatura para crianças.
Alessandro de Castro, escritor e mestrando em Teoria da Literatura na UERJ, especialista em literatura infanto-juvenil pela Cândido Mendes, iniciou a pauta. Segundo ele, todo monstro é o desvio da norma, não é aquilo que se espera de um semelhante. Alessandro analisou a visão que se tinha dos monstros ao longo da história. Na idade média havia a imagem do mal, inimigo do belo. Os medievais consideravam monstros atraentes, mas não de modo positivo. O terror atraía. Depois dessa análise, ele conduziu sua apresentação para os monstros na literatura infantil.
O maniqueísmo mostra pra criança a diferença discrepante entre bom e mau. O mau é nítido, então isso faz com que haja uma facilidade por parte do público infantil em entender que na realidade também há essa dualidade. Alexandre apresentou alguns dos seus livros infantis sobre monstros, como Condomínio dos monstros e Aniversário no cemitério e O corvo e o dragão. Ele comentou que seus monstros favoritos são do folclore brasileiro, e que tenta adicioná-los às narrativas de algumas de suas histórias, como Procura-se o curupira, lançado neste ano, e Quem matou o saci? Alessandro encerrou sua fala afirmando que é importante que a criança aprenda a sentir medo, é essencial que saiba que o mal existe, para que também aprenda a enfrentá-lo.
Felipe Campos, especialista em literatura infanto-juvenil, foi o próximo a se apresentar. Ele fez um recorte sobre as figuras vilanescas que se misturam na cenografia infantil. Seu propósito é entender os elementos que causam medo nessas histórias. Contos da meia-noite do mundo, de Rodolfo Castro e Alexandre Camanho, o primeiro livro analisado, traz o terror para crianças de forma sombria, com o uso de imagens voltadas para o gótico. No compartilhamento de tela, ele pôde mostrar ao público do FIL algumas das imagens descritas. Barbazul, de Anabella López, foi outro livro analisado em sua pesquisa. A obra remete a cor azul à presença do vilão da história, e isso gera a narrativa do terror. Em João e Maria por Taisa Borges, a bruxa é a personificação da fome, é metade cor e metade sombra, o que simboliza a dualidade da personalidade da vilã.
Felipe também falou um pouco sobre suas referências como escritor e pesquisador, indicando o filme Coraline como fundamental para o terror infantil. Ele apresentou seus livros de terror para crianças, alguns deles são: Artur e os medos, A lenda do rato no telhado e Você tem coragem? O especialista aborda em suas obras a questão do medo no cotidiano das crianças. Durante a quarentena, ele fez o livro Vírus Marvadus, falando sobre o coronavírus e sobre a desinformação a respeito do seu perigo. Além da escrita, ele também é responsável pela ilustração de suas obras.
Luisa Bê, escritora, artista visual e mestranda em Literatura Brasileira pela UFRJ, foi a última a se apresentar. Ela iniciou sua participação mostrando ao público algumas das suas artes, e abordou sua trajetória e suas conquistas como artista. Muitos dos seus trabalhos receberam prêmios renomados ao longo dos anos. Seu processo de criação das ilustrações surge a partir da escrita, e Luisa falou sobre como isso é fundamental para suas artes. Ela apresentou algumas das produções escritas que escreveu, mostrando terror em poesia e em prosa. A artista leu para o público parte do Livro de Fó, fazendo as diferentes vozes das personagens. Sua maneira de interpretar a narrativa deu vida à obra e foi elogiada pela audiência do Fil. Depois, ela falou sobre sua pesquisa de mestrado intitulada como O híbrido multiverso do sítio do pica-pau amarelo.
A partir de então, ela discorreu acerca da visão de Monteiro Lobato quanto aos monstros. Luisa afirmou que essa visão é positiva, e que o próprio sítio do pica-pau amarelo já é um monstro híbrido por si só. Segundo ela, o sítio é a mistura de todos os possíveis universos do conhecimento humano. Ela falou sobre como os monstros e os heróis se tornam uma mesma criatura no imaginário social. Ao falar sobre isso, deu como exemplo o Dr. Frankenstein e sua criatura, que é tão repugnante que o monstro sem nome é homônimo de seu criador Frankenstein. Paralelamente, Lobato encarna ele mesmo a figura dupla do herói-monstro. Ele foi preso em 1941, acusado de comunismo, e teve seus livros queimados. No entanto, a pesquisadora observa que a perseguição não foi capaz de eliminar o híbrido Lobato-Sítio. Ou seja, sua arte e toda a sua importância permaneceram intactas apesar da oposição.
Após as apresentações, a mediadora Regina Michelli falou sobre sua ligação com os três convidados, que foram orientados por ela em suas pesquisas de mestrado. No término da live, Luisa, Felipe e Alexandre responderam perguntas sobre como trabalhar o medo em jovens e crianças durante a pandemia, qual é o processo de criação de suas obras, dentre outras questões mais específicas acerca dos seus trabalhos.
A mesa "Monstros, medos e outras criaturas" foi conduzida de forma leve e divertida. O conhecimento dos convidados acerca do tema é nítido, e a vontade de saber mais sobre as suas produções artísticas após a live é inevitável. A paixão que os três têm pelo terror infantil fascinou a audiência do Fil. Vale a pena separar uma hora do dia para assistir ao vídeo, que foi gravado e está no canal do YouTube do festival.



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